Marcia Bandini - Médica do Trabalho fala sobre programas de prevenção a álcool e drogas no trabalho

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Marcia Bandini - Médica do Trabalho fala sobre programas de prevenção a álcool e drogas no trabalho

Mensagem por Admin em Sex Ago 14 2015, 10:07

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Segundo dados do Ministério da Previdência, de 2009 a 2013, o número de auxílios-doença concedidos por transtornos mentais e comportamentais pelo uso de substâncias psicoativas no Brasil cresceu 50%, com destaque para o aumento da concessão de benefícios por uso abusivo de cocaína e álcool: 84,6% e 19,6%, respectivamente. A utilização de outras drogas também apresentou elevação considerável no período: 40%. Assim, o tema tem ganhado atenção de prevencionistas e outros profissionais, que se deparam com efeitos do abuso e dependência destas substâncias - o que, fatalmente, impacta na qualidade de vida e produtividade dos funcionários que as utilizam. Algumas empresas têm adotado medidas como programas de prevenção e reabilitação, campanhas e até rastreamento de álcool e drogas por meio dos polêmicos testes toxicológicos.

Nesta entrevista, a especialista em Medicina do Trabalho e diretora de divulgação da Anamt (Associação Nacional de Medicina do Trabalho), Marcia Bandini, comenta estas e outras questões relativas ao consumo de substâncias psicoativas, sua interface, abordagem e tratamento no ambiente ocupacional. Com base em sua atuação, desde 2004, com programas de prevenção do uso de álcool e drogas no ambiente de trabalho - incluindo treinamento como Medical Review Officer (MRO), na Holanda -, Marcia oferece uma visão abrangente sobre a adoção de testes toxicológicos e aponta pilares para programas de prevenção bem-sucedidos.


Crescem os benefícios previdenciários pagos por transtornos mentais e comportamentais provocados pelo consumo de drogas no trabalho ou fora dele. Na sua visão, que motivos podem estar atrelados a isto?
O uso de álcool já aparece como a oitava causa de aposentadoria pelo INSS. Vale lembrar que, como comorbidade, ele pode estar associado a outros quadros também. Falando sobre causas, acredito que possamos olhar três aspectos. O primeiro é o fato de o próprio trabalho ter mudado. O exemplo mais clássico disto é a internet. Se você pensar em 20 anos atrás, poderá observar muito do que a tecnologia trouxe, novas formas de trabalho, novas formas de pensar o trabalho, de se relacionar. Hoje, as pessoas trabalham em casa, viajando, trabalham em qualquer lugar, e por muitas horas. Esta modificação faz com que ele seja mais cognitivo. Se os limites de tempo, de espaço e de demanda desse trabalho mais cognitivo não forem muito claros, é natural que você comece a ultrapassar alguns limites, e que isso se reflita em adoecimento mental. Outro ponto é que, apesar de ainda haver um estigma muito grande, nos últimos 20 anos mais especificamente, se tem falado muito mais sobre transtorno mental, tratamento e recuperação. O terceiro ponto é que os transtornos mentais se apresentam de maneira mais exuberante atualmente.

Na sua percepção quais seriam as drogas mais consumidas hoje no país?
Quase 60% da população consome álcool. Das pessoas que consomem, 30% consome com algum exagero. Então o álcool, de longe, é a droga mais consumida. Isso não significa que quem consome abusivamente o álcool seja dependente. O uso nocivo é uma coisa, a dependência química é outra. Certamente, um dependente químico do álcool passou pelo processo do uso nocivo. Mas nem todo mundo que faz uso nocivo vai se tornar dependente. Falando de drogas ilícitas mais comuns, por exemplo, maconha: cerca de 8% da população brasileira refere algum tipo de uso pelo menos uma vez na vida, e 6% no último ano. Já os dados sobre cocaína são alarmantes: 4% da população pesquisada refere uso em algum momento da vida, e em torno de 4% também no último ano.

Você acredita que determinadas condições de trabalho podem levar ao consumo de drogas e/ou álcool? Pode exemplificar?
Falando mais especificamente sobre o álcool, seu uso abusivo pode estar presente em todas as profissões. O que os estudos têm mostrado é que, para algumas atividades, existe um número aumentado de usuários quando comparamos com a utilização da população em geral. Isto ocorre, por exemplo, em profissões que sejam menos valorizadas, socialmente consideradas degradantes. Sem estigmas, mas vamos pensar em pessoas que trabalham com necrópsia, resgate de animais de rua, em lugares afastados, remotos, que ficam longe da família - por exemplo, em grandes obras. O trabalho perigoso, degradante, pouco valorizado ou isolado tende a propiciar um uso abusivo, principalmente de álcool, e pode também favorecer o uso de outras drogas. Outras situações que também podem propiciar este uso são trabalhos exaustivos do ponto de vista mental, muito estressantes. Um exemplo são altos executivos que viajam muito. Eles também ficam isolados, longe de suas famílias, com alta pressão de demanda, pressionados pelos acionistas, pela própria empresa, pelo mercado, pela crise mundial, precisando entregar resultados. Também identificamos um número razoável de altos executivos que consomem álcool abusivamente. Outra situação que também pode favorecer e que está relacionada ao trabalho é o fácil acesso à droga. É conhecido, por exemplo, o uso de opioides entre profissionais da área de saúde, em especial os que estão de alguma maneira vinculados à UTI, centro cirúrgico, onde têm à disposição um maior número de opioides.

FOTO: Valdir Lopes

Entrevista à jornalista Priscilla Nery

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